sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Quando se abre na manhã,
rubra como sangue está.
O orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta à luz do meio-dia
é dura como um coral.
O sol assoma nos vidros
só para a ver fulgurar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar,
e quando a tarde desmaia
nas violetas do mar,
torna-se branca, tão branca
como uma face de sal.
E logo que a noite toca
brando corno de metal,
e as estrelas avançam
enquanto se esconde o ar,
no risco fino da sombra,
começa-se a desfolhar.

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!


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O poeta pede a seu amor que lhe escreva

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Andrés Sorel

«Um dia, ali para os lados da várzea de Granada, nasceu um menino, a cujo parto assistiram todas as fadas. Uma deu-lhe o dom da simpatia, outra o de agradar e outra o da poesia. Cada uma lhe deu, enfim, o seu dom especial. Mas quando parecia que já todas o tinham brindado com tão preciosos presentes viu-se que, escondida pelas outras, ainda restava uma fada, discreta e tranquila, ao lado das outras, desvanecidas com o seu orgulho. Esta última aproximou-se e outorgou ao recém-nascido o dom de saber viver. Com o passar do tempo, este menino, que se chamava Federico García Lorca, pôs em prática os dons das fadas. As suas poesias ainda mal tinham sido escritas agradaram: ainda inéditas, os seus amigos copiavam-nas e aprendiam-nas de memória; encontrava editores para os seus livros; até os dirigentes da Revista de Occidente adormeciam suavemente à sua passagem. E, enfim, os seus amigos eram amigos seus verdadeiramente.»

Frases

A Terra é o provável paraíso perdido.

A criação poética é um mistério indecifrável, como o mistério do nascimento do homem. Ouvem-se vozes, não se sabe de onde, e é inútil preocuparmo-nos em saber de onde vêm

A poesia não quer adeptos, quer amantes

A poesia é a união de duas palavras que nunca se supôs que se pudessem juntar e que formam uma espécie de mistério

A poesia é algo que anda pela rua

A tradução destroça o espírito do idioma


Eu nunca serei político. Eu sou revolucionário porque não há verdadeiro poeta que não seja revolucionário.

Há coisas encerradas dentro dos muros que, se saíssem de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo

Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.

O homem famoso tem a amargura de levar o peito frio e trespassado por lanternas furta-fogo que os outros lhe dirigem

Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo

Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas

Copiado do Blog "Melhor Amigo"

Antônio Carlos Secchin, no seu livro Poesia e Desordem (Rio de Janeiro: Toopbooks, 1996) escreve:


"Para que serve um poema? Talvez para insistir que há sempre restos, equívocos, lapsos, fraturas na sintonia do homem com o real."
E acrescenta:

"Discurso da desordem consequente, a poesia não precisa lamuriar-se diante da ordem tecnológica e nela acusar o inimigo obstrutor de seu alcance. Excluída há mais de um século do grande circuito de consumo, ela pode, à margem, vigorar sem outro compromisso que não seja a afirmação de que nossa liberdade passa não apenas pelas palavras em que nos reconhecemos, mas, sobretudo, pelas palavras com as quais aprendemos a nos transformar."

postado por Diogo Vaz Pinto

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ponto de partida?

Sempre que vou começar alguma coisa, alguma peça de teatro, um texto qualquer, sempre procura alguma pergunta cuja resposta, aparentemente impossível, revelaria uma verdade libertadora para mim.
Se eu pudesse chegar próxima a um sábio, e tivesse direito a uma pergunta, o que perguntaria?
Para o meu Garcia Lorca escolhi algumas perguntas que considero fundamentais: Qual é o valor de um poema? Quanto vale a vida de um poeta?A poesia ajuda alguém a ser melhor? Milênios de poemas nos tornaram mais "civilizados", menos bárbaros?
Penso o dia inteiro nos poetas da frente do MASP , da CASA DAS ROSAS...